22 Maio 2011
Michel tudo fazia para me indispor contra meu filho e contra qualquer outro Interno ou mesmo policial, desde soldado até oficiais, dos quais se aproximava, maliciosamente. Ele guardava uma grande raiva contra mim. Um certo dia, mais precisamente num domingo, 23 de junho de 1996, eu levava um pouco de comida trazida por minha mulher, pretendendo aproveitá-la no dia seguinte. Ao iniciar minha caminhada pelo corredor que levava até nosso alojamento, pude ver André e seu fiel escudeiro, Lima, que entravam em nosso dormitório. Quando atingi a porta, que estava encostada, empurrei-a com os pés. Ao ser aberta quase levei um choque – vi uma cena que não poderia ser vista -. Michel estava deitado em sua cama, tranqüilamente, e a seu lado uma mulher, que ele dizia ser sua namorada, ambos fumando (o que também era proibido). A mulher levantou-se, assustada com minha entrada inopinada e inesperada, pois quanto aos dois que lá estavam não precisavam se importar – André tinha o rabo preso com Michel, porque também levava sua mulher para o banheiro, nos dias de visita. E eu já sabia desse fato, porwque daquela vez em que ele assim agiu, ordenou-me - “sai logo porque vou usar o banheiro!“. Guardei esse segredo por muito tempo, só o mencionando agora, neste livro. Com Michel era diferente. Ao saber desses encontros do Capitão, passou a explorar André, que chegava a comprar duas porções de comida, na Cantina, aos sábados, sendo uma delas era para Michel. E a exploração foi além – Michel conseguiu que André arranjasse uma extensão do aparelho de televisão, com dois fones de ouvido, um para cada, e apenas os dois podiam ver e ouvir os programas, inclusive os filmes pornôs, que os dois exibiam em vídeo, de madrugada. O aparelho ficava ao pé da cama dos dois, quase juntas. Os outros que se danassem. E foi por causa daquele segredo do Capitão que Michel sentiu-se no direito de levar a mulher. André, para disfarçar, fazia que pegava alguma coisa no armário, enquanto que Lima pegava u’a mala de roupa suja, que sua mulher levava. Michel ia além. Várias vezes ao dia cheirava um tubinho, dizendo que era para resfriado, que não sarava nunca. Com o passar do tempo descobri que se tratava de droga. E André nada dizia, tolerava , calava-se.
22 Maio 2011
No dia seguinte, depois de algumas rápidas e apressadas idas e vindas de André, fui retirado do alojamento dos oficiais e mandado para o alojamento 5, dos soldados e Michel foi para o alojamento 3, também para soldados. Alguns oficiais e sargentos estavam na expectativa de que eu lhes fosse pedir para permanecer no alojamento anterior, mas estavam redondamente enganados, pois, com aquela mudança, fiquei super feliz em deixar aquele antro de elementos de mau caráter e principalmente porque não me senti castigado (não havia cometido qualquer falta) mas sim contemplado, uma vez que eu já fizera pedido para aquela transferência, negada até então. Quando acabei de retirar meus pertences, fiz questão de varrer o chão, até a porta de entrada do alojamento, onde retirei meus chinelos, batendo-os, para não levar nem mesmo o pó daquele ambiente. Nesse instante André levantou-se de sua cama e veio correndo em minha direção, batendo a porta com força. Para ele era como se estivesse expulsando o civil do lugar destinado somente a oficiais, e ele, como chefe do alojamento, fizera esse último ato. Era uma grande imbecilidade, praticada por um ladrão imbecil, e, afinal de conta não passávamos de presos... Com Michel o tratamento por parte de André foi diferente. Michel continuou a usar seus armários, o banheiro e freqüentar a mesa dos oficiais. E, no alojamento 3, tinha também seu armário. MEU LIVRO É CENSURADO Assim que passei para o alojamento 5, pedi autorização para receber uma de minhas máquinas de escrever, explicando que era para datilografar um livro, que eu estava escrevendo sobre a vida na prisão. Depois de muita burrocracia acabei recebendo a máquina. O livro já esta a em fase adiantada, manuscrito. Precisava acrescentar fatos posteriores à minha vinda para o Romão. Só que eu não conseguia trabalhar direito. Durante a noite era impossível. Durante o dia alguns presos queriam dormir (era proibido, mas mesmo assim o faziam) e um deles, de nome Roxo, chegou a chutar minha máquina, quebrando-a. Levou alguns dias para eu receber a peça e continuar meu trabalho, agora no pátio. Guardava a máquina em meu armário, deixando algumas coisas de fora. Um dia, fui chamado à sala do Major sub-comandante, que estava interessado em saber sobre a progresso de meu livro e pediu-me o manuscrito. Entreguei-lh’o, dizendo que era o único que eu possuía (porém eu tinha uma cópia a carbono). Os dias se passavam e ele não m’o devolvia. Fiz-lhe a cobrança e recebi ordem de ir até sua sala. O Major retirou meu original de uma gaveta e me advertiu de que eu devia tirar algumas coisas, que ele já havia riscado. Fiz-lhe ver que ele não podia exigir aquilo, pois já não mais existia censura, que era uma obra literária, que eram fatos verídicos. O Major insistiu. Se você não tirar eu não devolvo.Acabei concordando, mas retruquei – ‘tá bom, enquanto estou aqui vai ser assim, mas quando eu sair vou escrever tudo de novo, até o que o senhor censurou...O Major disse – se você puser meu nome você vai se dar mal...Essa mesma expressão era repetida por outros oficiais, ao saberem que seus nomes seriam mencionados. Por isso aqueles versos iniciais – Sei que em represália...
22 Maio 2011
No último dia de uma semana, ou seja, no sábado, enquanto quase todos nós estávamos no pátio, aguardando em forma a chamada de revista à tropa (afinal, era Presídio Militar), após o almoço, fomos mantidos em formação e impedidos de adentrarmos nossos alojamentos. Ia se proceder a uma blitz (busca relâmpago), em busca de algo ilícito, como armas, bebidas, instalações elétricas clandestinas, revistas pornográficas, abridores de latas, ou mesmo drogas. Ninguém, dentre os mais de trezentos presos, se preocupavam com o que iria ser feito, pois nada temiam, uma vez que seus B.O.s (como eram chamados os proibidos) eram aceitáveis, sem ou com pouca punição. Ninguém é modo de dizer – havia um que andava de um lado p’ra outro, falava com nervosismo, esfregava as mãos e tinha o rosto lívido, sem o habitual sorriso de escárnio – Michel -. Os oficiais encarregados das buscas chamaram dois Internos de cada alojamento, para acompanharem os trabalhos iniciais e depois, cada Interno era chamado para abrir seu próprio armário e presenciar as buscas. Todos, com exceção de Michel (e André, seu aprendiz) , traziam seus pertences debaixo de chave, com cadeados. Michel sempre dizia que agia assim porque, se algo acontecesse, ele poderia se esquivar, alegando que o que fosse encontrado não lhe pertencia e que alguém o colocara lá – era uma saída que havia aprendido nas cadeias americanas -. As buscas eram minuciosas, nada escapou, reviraram colchões, camas foram desmontadas, frestas de portas dos armários, enfim em todo lugar onde os olhos pudessem alcançar e as mãos pudessem tocar.E, devido àquela busca intensa, chamada de pente fino, os oficiais, à frente de testemunhas e do próprio dono do armário, encontraram droga, mais precisamente maconha, no armário de Michel, no alojamento 3. De imediato ele se disse estar abismado e procurou justificar, dizendo que alguém havia colocado lá. Os oficiais não aceitaram a explicação, pois, conforme lhe informaram naquele instante, já havia depoimentos de outros Internos, por escrito, informando que ele, Michel, fôra flagrado no banheiro, fumando maconha. Como os Internos precisavam fazer uso do sanitário, insistiram e Michel acabou abrindo. Mas o cheiro característico e conhecido dos ex-policiais, permaneceu no ambiente. Esse fato foi levado ao conhecimento do Comando, que então determinou as buscas. Corria pelos corredores o comentário de que, no alojamento dos oficiais, sempre perante testemunhas, no armário ainda utilizado por Michel, também foi encontrada uma substância branca, que poderia ser cocaína. Por isso, em razão desse ilícito, Michel foi levado ao Distrito Policial do bairro, para ser autuado em flagrante. Para se esquivar à imputação de tráfico de entorpecente, Michel preferiu assumir a responsabilidade de viciado, crime menor. Na volta ele foi mandado para a solitária ou cela forte, da sub-seção, onde ficou apenas um dia, passando depois a morar no X3, no 1º estágio. E com esses fatos Michel perderia o semi-aberto, cujo regime ele deveria cumprir no Romão Gomes, desde sua chegada. Michel ficou ali por cinqüenta dias, depois daquelas buscas, e foi enviado para uma Penitenciária do interior, na Comarca de Presidente Venceslau. Lá, ele não teria as regalias que vinha gozando, e ainda estava arriscado a sofrer algum atentado, por parte de outros presos, criminosos comuns, que eram inimigos naturais de quem já havia passado pelo COC, como, principalmente, pelo Romão Gomes, reservado a policiais militares e ex-policiais. E os comentários que chegaram, trazidos pelos policiais da escolta de Michel, o mesmo precisava estar separado dos demais, naquilo que se chama seguro,. Parecia ser, para Michel, uma etapa final de uma vida criminosa, iniciada havia mais de vinte anos antes.
22 Maio 2011
Antes que Michel deixasse o Romão Gomes, aconteceu um fato que Michel não gostaria que tivesse acontecido – depois de muitas delongas e injunções, criadas por alguém que não queria que isso acontecesse, chegou a ordem do Juiz, promovendo-me ao regime semi-aberto, cujo fax chegou exatamente dois minutos antes das 18 horas do dia 09 de agosto de 1996, na ante-véspera do Dia dos Pais. No dia anterior eu havia recebido a visita de minha filha, que estava fazendo correria para que me fosse concedido aquele benefício e que eu fosse autorizado a sair do Presídio, a tempo de poder reunir-me com meus familiares, em minha própria residência, naquele Dia. Disseram que faltava um documento (sempre faltava algum...) e fui conversar com o Capitão Chefe da Seção Penal. Este disse-me que, não seria concedida a autorização de saída porque havia uma Portaria do TJM (Tribunal de Justiça Militar) determinando que depois de chegar a ordem do semi-aberto, era preciso fazer uma petição, solicitando tal autorização, que poderia ser despachada pelo Comandante. Ingenuamente expliquei que minha filha já tinha em mãos uma petição, solicitando aquela autorização. Foi como um murro na cara do Capitão, cuja face se transformou, deixando transparecer seu desgosto. No mesmo dia anterior, minha filha estava junto à mesa do Juiz, aguardando o despacho da concessão do benefício e também da autorização de saída. Enquanto aguardava, sabedora de que o magistrado esta propenso a conceder ambos os pedidos, quase sofreu uma crise de nervos, conforme me explicaria. Isso porque houve a intervenção de uma funcionária, Chefe do Cartório, que fazia gestões, instando o Juiz a não conceder, pois havia aquela Portaria (ela viria a ser uma grande amiga nossa). Não esclareceu a funcionária, no entanto, que havia precedentes, de elementos que haviam recebido a autorização de saída, como por exemplo o barbeiro do Presídio, de prenome Ribamar, beneficiado dia 21 de dezembro de 1995 e autorizado a sair no dia 23 do mesmo mês. Havia também o caso de Nei Ricardo, que recebeu o semi-aberto na sexta-feira da Semana do Dia das Mães (domingo) e concomitantemente a autorização para sair. Até meu filho havia sido beneficiado com o semi-aberto e, ao mesmo tempo, com a autorização de saída, da mesma forma que aconteceu com meu afilhado, todos sem antes daquele tal lapso de quinze dias... Mas comigo era diferente...havia sempre alguém. por trás dos bastidores, para infernizar minha vida, prejudicando-me...E NÃO ME DEIXARAM SAIR... E essa sombra em meu cativeiro sempre surgia ora na pessoa de uma autoridade, ora na de outra, sempre influenciadas ou influenciando, para me fazerem o mal... MAIS UM MOTIVO DAS REBELIÕES O preso, quando consegue receber o regime semi-aberto, geralmente é autorizado a deixar o Presídio, para sair em busca de emprego. Digo geralmente porque, no COC, o semi-aberto é cumprido apenas deixando o preso sair dos prédios fechados com grades, sendo-lhe permitido trabalhar no lado de fora, porém sem deixar o estabelecimento (por isso Michel pediu e conseguiu sua transferência para o Romão Gomes, caso contrário iria aguardar muito tempo para ver a rsa...). Isso gera sentimentos de revolta, porque o mesmo não acontece nos demais presídios. O preso pode sair. PORÉM, devido a muitos motivos, dentre eles a discriminação, não consegue trabalho. O preso é discriminado, sem direito a um lugar ao sol. Não lhe é dado o direito de se reintegrar na sociedade. Da mesma forma, quando saí definitivamente da prisão, o mesmo acontece. O egresso não arranja emprego, as chamadas associações de ajuda ao egresso, religiosas ou não, são apenas de fachada, não ajudam, os familiares se afastam, os amigos desaparecem. Ë mais um motivo de convívio com outros, em igual situação, o que, certamente, irá causar novas violências, com a volta para a prisão Os que ainda continuam presos, ao tomarem conhecimento do que acontece lá fora, acabam, por antecedência, ficando preocupados com o que possa vir a acontecer com eles, quando saírem, num ou noutro regime (semi-aberto ou definitivo). E ficam revoltados. Acabam liderando ou mesmo participando de rebeliões, sempre violentas.
22 Maio 2011
Eu não podia afirmar com certeza, que o Capitão estivesse sendo influenciado, mas eu tinha minhas dúvidas. E por que as tinha? Muito simples – além do fato de aqueles dois advogados de Alexandra serem ligados, direta ou indiretamente, à Polícia Militar, havia uma outra coincidência muito grande, ou seja, um terceiro advogado, que havia feito a defesa dela em plenário (os dois não tinham coragem e capacidade para fazer a defesa), no julgamento no Tribunal do Júri (ela foi condenada...) e que era, também, advogado do Capitão, o qual, segundo comentários, respondia a dois processos por duplo e triplo homicídios (boa gente, ele...). Esse terceiro advogado, cujo nome não é digno sequer de ser mencionado, além de ter sido defensor de Alexandra, tinha uma certa antipatia por mim, pois eu não concordava com suas atitudes, quando o mesmo levava suas alunas (homens ele não levava) para assistirem a sua atuação em plenário (igualzinho a meu “defensor”) e depois as assediava. Por esses motivos eu tinha grande dose de desconfiança de que também esse advogado estivesse induzindo seu cliente (o Capitão) contra mim (mas também esse advogado foi punido.De um homem forte que era passou a pesar menos de cinqüenta quilos e só podia sair à rua se estivesse acompanhado). E meus dentes e gengivas continuavam precisando de tratamento. Seguindo a hierarquia e o regulamento, pedi-lhe licença para me dirigir ao Sub-Comandante, que anotou meu pedido, dizendo –“Vamos ver o que se pode fazer...”. Continuei insistindo. O Major irritou-se, quase gritando – “Você está sendo impertinente, vê se não me enche !” E fiquei aguardando. Mas existe um Deus onipotente, onisciente, onipresente. Mais uma vez recorri a Ele. Consegui, afinal, ser levado para o Centro Odontológico. onde os dentistas afirmavam ser necessária a extração dos dentes, agora em número de quatro... e, finalmente, lá se foram meus dentes... MINHA VOLTA Depois do Dia dos Pais fui autorizado a sair, à procura de emprego. Diferentemente do Sistema Prisional comum, no militarismo não era permitido trabalhar em firma própria nem de parentes, e muito menos próximo da residência. Então consegui arranjar um lugar na ACRIMESP (Associação dos Advogados Criminalistas de São Paulo), de cuja reunião de fundação tive a honra de participar. O advogado que a estava presidindo também já estivera preso, por isso entendia minha situação e me deu a oportunidade de trabalhar na Secretaria, instalada dentro do prédio do Fórum Criminal. Ali dei meus primeiros passos na computação e comecei a digitar meu livro. Um dia avistei o Capitão Edson, então Chefe da Seção Penal, e me dirigi até ele, a fim de me apresentar. Ele estranhou minha presença, pois não sabia que eu já estava no semi-aberto. Um outro dia vi alguns soldados, que escoltavam Michel para uma audiência. Procurei saber qual a Vara e, dias depois, fui até o respectivo Cartório, pedindo para ver os autos. Que surpresa eu tive! O advogado de Michel era seu irmão (aquele amigo do Juiz Corregedor)que havia arrolado como testemunhas de defesa nada mais que os oficiais do alojamento – André meteu o pau em mim, Lima idem, Sordi (preso por tráfico), também. Um ex-soldado, de prenome Sandro, de família evangélica, da quadrilha de André, teve o desplante de insinuar que eu, durante aquela blitz, tinha estado próximo ao armário de Michel. Todos disseram que eu era inimigo de Michel. Pereira, que NUNCA havia estado no COC, disse que nesse Presídio eu tinha avançado contra Michel, com um estilete. Foi uma barbaridade, um desfile de mentiras, procurando encobrir o gesto criminoso de Michel e pretendendo transferir para mim a responsabilidade pela droga encontrada (não fumo, não bebo e detesto drogas). Michel acabaria sendo absolvido. Na ACRIMESP conheci uma advogada, inscrita o Estado do Acre. Depois de travarmos conhecimento consegui que ele me contratasse, em meu escritório (instalado em nome dela), naquele prédio cuja posse nós havíamos retomado de Alexandra. Ali eu estaria a um passo de minha residência e a dois passos de meu restaurante, ambos no prédio ao lado.